Quando falamos sobre aromas e bem-estar, é comum que a conversa seja imediatamente associada aos óleos essenciais. Lavanda para relaxar, cítricos para trazer frescor, determinadas plantas ligadas à tranquilidade.

Mas essa associação pode criar uma ideia equivocada: a de que somente os óleos essenciais seriam capazes de produzir respostas emocionais ou sensações de bem-estar através do olfato. A ciência do olfato mostra que a relação entre cheiro, emoção e memória é muito mais ampla.

O que acontece quando sentimos um aroma?

Para percebermos um cheiro, moléculas voláteis entram em contato com os receptores olfativos e iniciam um processo neural complexo. A informação olfativa alcança redes cerebrais relacionadas à percepção, à emoção e à memória.

Décadas de pesquisa mostram que odores têm uma relação particularmente forte com estados emocionais e com a evocação de memórias. Revisões sobre neurociência do olfato destacam justamente essa proximidade entre os circuitos olfativos e estruturas envolvidas no processamento emocional.

Essa resposta não é exclusiva dos óleos essenciais.

O sistema olfativo responde a moléculas odorantes provenientes de inúmeras fontes: uma fruta, café, flores, madeira, terra molhada, alimentos, perfumes ou fragrâncias formuladas.

A origem comercial do aroma — “óleo essencial”, “perfume”, “fragrância” — não é o que define se ele pode ou não ser percebido pelo sistema olfativo.

O cheiro pode provocar respostas emocionais e fisiológicas?

Sim.

Um estudo clássico publicado na revista Chemical Senses investigou justamente a relação entre a percepção de odores e respostas do sistema nervoso autônomo. Os pesquisadores observaram que características como agradabilidade e nível de ativação percebido do odor estavam relacionadas a alterações fisiológicas, incluindo variações de frequência cardíaca e condutância da pele.

Revisões posteriores também encontraram uma ampla relação entre odor, humor e emoção. Há estudos, por exemplo, em que odores agradáveis — inclusive perfume comercial — foram associados a melhora de humor e sensação de calma.

Isso não significa que qualquer cheiro produza bem-estar.

A resposta depende de diversos fatores: agradabilidade, concentração, familiaridade, experiências anteriores, contexto e características individuais.

Um mesmo odor pode ser agradável para uma pessoa e desagradável para outra.

A memória também participa dessa experiência

A ligação entre cheiro e memória é uma das características mais estudadas do sistema olfativo.

Odores podem evocar memórias autobiográficas particularmente carregadas de emoção, e há pesquisas mostrando que odores associados a lembranças positivas podem influenciar estados emocionais e até alguns indicadores fisiológicos relacionados ao estresse.

Isso ajuda a compreender por que o significado de um aroma pode mudar conforme a história de cada pessoa.

Um cheiro associado à casa da infância, a uma viagem, a uma pessoa querida ou a um momento de descanso não é percebido apenas como uma composição química.

Ele também carrega aquilo que foi aprendido e vivido junto dele.

Então qual é a diferença dos óleos essenciais?

Aqui está a distinção mais importante: Uma coisa é a resposta olfativa provocada por um cheiro.

Outra é a atividade farmacológica de determinados compostos presentes em alguns óleos essenciais.

Óleos essenciais são misturas complexas de substâncias químicas produzidas pelas plantas. Alguns dos componentes possuem atividades biológicas estudadas em laboratório, em modelos animais e, em alguns casos, em estudos clínicos.

O óleo essencial de lavanda é um dos mais pesquisados. Entre seus principais componentes estão o linalol e o acetato de linalila, moléculas investigadas por possíveis ações sobre mecanismos do sistema nervoso central.

Mas a qualidade das evidências varia bastante dependendo do composto, da concentração, da forma de administração e do efeito estudado.

No caso da lavanda, por exemplo, parte relevante da evidência clínica está relacionada a preparações específicas e padronizadas. Isso significa que não podemos pegar o resultado obtido com determinado produto, dose ou via de administração e concluir que simplesmente sentir qualquer aroma de lavanda produzirá o mesmo efeito farmacológico.

Resposta olfativa não é a mesma coisa que efeito farmacológico

Essa diferença é essencial entender: Uma fragrância pode ser percebida pelo sistema olfativo, despertar memórias, produzir prazer ou desconforto e influenciar nossa experiência emocional sem possuir os mesmos efeitos farmacológicos encontrados em estudos com determinado óleo essencial.

Da mesma forma, o fato de um óleo essencial conter componentes biologicamente ativos não significa que toda experiência subjetiva provocada por seu cheiro seja necessariamente explicada por esses efeitos farmacológicos.

Os dois fenômenos podem coexistir, mas não devem ser confundidos.

O que podemos afirmar com segurança?

Podemos afirmar que diferentes odores, e não apenas óleos essenciais, podem provocar respostas emocionais por meio do sistema olfativo.

Podemos afirmar que características como agradabilidade, familiaridade, concentração e memória influenciam a maneira como um odor é percebido e podem se relacionar com respostas do sistema nervoso autônomo.

Podemos afirmar também que determinados componentes presentes em alguns óleos essenciais apresentam atividades farmacológicas estudadas.

O que não podemos afirmar, sem estudos específicos, é que uma fragrância comercial reproduza os efeitos farmacológicos de determinado óleo essencial, reduza cortisol, trate ansiedade ou produza o mesmo resultado em todas as pessoas.

E onde entram as fragrâncias para a casa?

É justamente aqui que a experiência olfativa pode ser compreendida sem transformá-la em promessa terapêutica.

Uma fragrância pode participar da forma como percebemos um ambiente. Pode se tornar familiar, ser associada a determinados momentos e despertar sensações ou memórias.

E  o mais interessante é que a ciência mostra que o olfato participa profundamente da maneira como construímos experiências emocionais e lembranças.

Azulejo: cítricos, memória e percepção de frescor

Na coleção Azulejo , da SYMPHONIAROMES, a construção olfativa combina limão-siciliano, verbena e baunilha.

Notas cítricas são frequentemente percebidas como luminosas, frescas ou vivazes dentro da linguagem da perfumaria. Mas isso deve ser entendido como uma descrição sensorial e cultural da fragrância, não como uma afirmação de efeito fisiológico ou terapêutico.

Para alguém que aprecia essa composição, Azulejo pode integrar momentos agradáveis da casa e, com o tempo, adquirir novas associações emocionais e memórias.

 

Lavandário: a lavanda além da aromaterapia

A lavanda possui uma longa história na perfumaria, no cuidado doméstico e na cultura material europeia. Muito antes de se tornar um dos símbolos contemporâneos da aromaterapia, já era utilizada pelo valor de seu perfume.

Em Lavandário, a lavanda pode ser experimentada justamente nesse território olfativo: como matéria de perfumaria, atmosfera e memória.

É importante separar essa experiência da literatura farmacológica sobre óleo essencial de lavanda.

Uma fragrância inspirada em lavanda não deve ser apresentada como equivalente farmacológico ao óleo essencial estudado em pesquisas clínicas.

Ela pode, entretanto, ser percebida como agradável, familiar ou reconfortante por quem aprecia esse perfil olfativo — fenômenos plenamente compatíveis com o que conhecemos sobre olfato, emoção e memória.

Bem-estar não precisa significar tratamento

Para mim essa é a distinção mais importante: sentir-se bem diante de um aroma não é o mesmo que tratar uma condição de saúde.

Uma música pode nos emocionar sem ser medicamento. Algumas páginas de um livro podem nos proporcionar tranquilidade sem serem terapia. Um ambiente agradável pode mudar a maneira como vivemos algumas horas do dia sem precisar fazer uma promessa clínica.

Com o olfato acontece algo semelhante: a ciência não nos obriga a escolher entre dois extremos: ou acreditar que todo aroma possui propriedades terapêuticas, ou considerar que fragrâncias não podem participar de experiências emocionais significativas.

Existe um território muito mais interessante entre essas duas posições.

Odores podem despertar memória, emoção, prazer, aversão e diferentes respostas do organismo. Isso não é exclusividade dos óleos essenciais.

E reconhecer esse fato não exige transformar perfume em medicamento.