Faz alguns dias que estava salvando ideias de porta livros no pinteres, quando apareceu uma palavra que eu não conhecia ainda: hygge..
Como, a curiosidade sempre surge em situações como essa, fui pesquisar o significado e passei horas lendo sobre o universo hygge, pois me identifiquei muito...
Eta é uma palavra dinamarquesa que ganhou livros, reportagens, fotografias de interiores e milhares de referências nas redes sociais. A popularização fora da Dinamarca acabou produzindo uma curiosa simplificação: em muitos lugares, aquilo que descrevia uma experiência social e cultural passou a parecer um estilo de decoração.
Mas hygge não é uma paleta de cores e não depende de possuir determinada poltrona, uma manta específica ou uma casa escandinava.
Na descrição oficial da própria Dinamarca, hygge está relacionado a afastar-se por algum tempo da pressa cotidiana para desfrutar prazeres mais tranquilos, sozinho ou junto de pessoas próximas. Pode acontecer durante uma refeição que se prolonga porque a conversa continua, em uma noite com amigos, diante de um livro ou simplesmente durante algumas horas em casa nas quais não existe uma agenda a cumprir. Talvez seja justamente aí que o conceito me deixou mais intersssada: hygge fala menos sobre como uma casa parece e mais sobre o que acontece dentro dela.
Uma cultura construída também dentro de casa
O clima ajuda a compreender essa relação. Durante boa parte do ano, a Dinamarca enfrenta períodos frios, escuros e úmidos, fazendo com que uma parcela importante da vida social aconteça em ambientes internos. O inverno é descrito pelo próprio portal oficial do país como a principal época do hygge.
Mas reduzir tudo ao clima seria pouco. O hygge também está ligado à convivência. Refeições podem durar horas. Amigos conversam sem que haja necessariamente uma programação. Chocolate quente, comida, jogos, livros e encontros domésticos aparecem repetidamente nas descrições dinamarquesas dessa experiência.
Existe inclusive pesquisa acadêmica tratando o hygge como uma forma de “cozy togetherness”, expressão que poderíamos compreender como uma convivência próxima e acolhedora. Pesquisadores que estudaram suas características sociais observaram relações entre o conceito e temas como pertencimento, cuidado coletivo e conexão entre as pessoas. Isso não transforma o hygge em fórmula para uma vida melhor, mas mostra que estamos diante de algo mais complexo do que uma tendência decorativa.
Não é difícil compreender por que um livro cabe tão bem nessa experiência.
Livros também fazem parte dessa história
O próprio portal oficial da Dinamarca menciona que hygge pode acontecer sozinho, inclusive acompanhado de um bom livro.
E os hábitos culturais do país tornam essa associação ainda mais interessante.
A pesquisa de hábitos culturais da Statistics Denmark estima que 68% da população havia lido ou ouvido livros durante os 12 meses anteriores ao levantamento. O indicador considera diferentes formas de acesso à literatura, incluindo livros físicos, digitais e audiolivros.
O dado não significa que os dinamarqueses leiam por causa do hygge. Essa relação causal não foi demonstrada e seria uma simplificação atribuí-la ao conceito; mas há algo culturalmente revelador na coexistência desses hábitos.
Uma sociedade na qual ler continua fazendo parte da vida de grande parcela da população também desenvolveu uma palavra para descrever aqueles momentos em que diminuir o ritmo, permanecer em casa e desfrutar atividades aparentemente pequenas adquire valor.
E existe outro objeto que aparece constantemente nessa história: A vela.
Por que os dinamarqueses acendem tantas velas?
A associação entre Dinamarca e velas não é apenas uma construção das redes sociais.
Um relatório da Dinamarca registra que o país apresentava o maior consumo de velas por habitante da União Europeia. Segundo o mesmo documento, 39% dos dinamarqueses utilizavam velas diariamente ou quase diariamente em casa.
É um número surpreendente para um objeto que, há muito tempo, deixou de ser necessário para iluminar nossas casas.
No contexto do hygge, porém, a vela não está ali simplesmente para produzir luz suficiente para enxergar. Ela modifica a atmosfera do espaço. A chama cria pequenos pontos luminosos, aproxima visualmente as pessoas e rompe a uniformidade da iluminação doméstica.
Por isso livros e velas aparecem tantas vezes juntos quando os próprios dinamarqueses descrevem momentos hygge. Não existe uma regra dizendo que seja necessário acender uma vela para experimentar hygge. Tampouco existe uma lista oficial de objetos que transforme uma casa em “hygge”. A vela apenas encontrou um lugar bastante particular dentro dessa cultura.
E os dinamarqueses realmente vivem melhor?
Aqui aparece uma coincidência difícil de ignorar — e perigosa de explicar de maneira fácil demais. A Dinamarca ocupa atualmente a 3ª posição no World Happiness Report 2026, com avaliação média de vida de 7,539 em uma escala de zero a dez. Finlândia aparece em primeiro lugar e Islândia em segundo; cinco países nórdicos estão entre os seis primeiros colocados.
Obviamente que o relatório não mede quantas velas uma população acende ou quantos livros existem sobre uma mesa. Os pesquisadores analisam diferenças entre os países considerando fatores como renda, apoio social, expectativa de vida saudável, liberdade para fazer escolhas, generosidade e percepção de corrupção. Os rankings também são calculados a partir de médias de três anos das avaliações que as próprias populações fazem de suas vidas.
O próprio portal oficial dinamarquês relaciona os altos níveis de satisfação do país a questões estruturais como igualdade social, confiança, comunidade e responsabilidade coletiva. Portanto, acender uma vela não produz a sociedade dinamarquesa, mas o hygge talvez revele alguma coisa sobre ela.
Talvez viver bem não seja fazer mais coisas
Existe algo curioso na maneira como o hygge se tornou conhecido fora da Dinamarca. Quando o conceito ganhou popularidade internacional, o mercado rapidamente encontrou uma maneira de transformá-lo em produto.
Surgiram livros ensinando hygge, roupas hygge, mantas hygge, objetos para uma “casa hygge” e, naturalmente, velas vendidas como parte dessa estética. O próprio portal oficial da Dinamarca comenta essa comercialização do fenômeno.
Mas existe uma contradição aí: uma cultura relacionada a aproveitar prazeres simples começou a ser apresentada ao restante do mundo como mais uma lista de coisas que precisaríamos comprar. Talvez seja justamente essa a parte menos interessante do hygge.
O que permanece quando retiramos a estética é muito mais humano: uma refeição que não precisa terminar depressa, uma conversa que não está sendo cronometrada, um livro aberto, uma música, uma vela acesa, algumas pessoas próximas — ou algumas horas consigo mesmo.
Há inclusive estudos sobre a experiência dinamarquesa de togetherness que procuram compreender esse “estar junto” como parte de redes informais de apoio social, ao mesmo tempo em que alertam para o risco de romantizar a sociedade dinamarquesa e ignorar suas contradições.
Para mim, no final das contas, o que mais me instigou a pensar foi:
quando estamos em casa, estamos apenas passando por ela ou realmente vivendo nela?
Para quem encontra prazer entre livros, música, conversas, aromas e pequenos rituais domésticos, essa pergunta provavelmentevai fazer sentido também.
Na SYMPHONIAROMES , o interesse pela casa nasce justamente desse encontro entre cultura e experiência sensorial. Uma vela não precisa preencher um ambiente apenas como objeto decorativo. Ela pode acompanhar aquilo que já acontece ali: uma leitura, uma conversa, uma música ou simplesmente algumas horas em que a casa volta a ser lugar — e não cenário.