Imagine entrar em uma casa onde ninguém precisa de uma vela para enxergar e, ainda assim, encontrar várias delas acesas. Aqui no Brasil, isso ainda está começando acontecer em algumas casas, mas, quando olhamos para a Dinamarca, a escala desse hábito chama atenção.

Um relatório publicado por uma Agência da Dinamarca registrou o país como aquele de maior consumo de velas por habitante da União Europeia. Na mesma pesquisa, 39% dos dinamarqueses disseram utilizar velas diariamente ou quase diariamente em casa, ou seja, quase quatro em cada dez pessoas.

O número é particularmente curioso porque estamos falando de um país moderno, eletrificado e reconhecido internacionalmente justamente por ter uma cultura de design e iluminação.

Na Dinamarca, iluminar uma casa também é construir uma atmosfera

O antropólogo dinamarquês Mikkel Bille, pesquisador da Universidade de Copenhague, passou anos estudando justamente a relação entre iluminação, casas e vida social na Dinamarca.

Encontrei uma pesquisa dele chamada “Lighting up cosy atmospheres in Denmark”, publicada na revista Emotion, Space and Society, em que Bille observou residências em Copenhague para compreender como diferentes formas de iluminação participavam da construção da atmosfera doméstica e a conclusão é muito mais interessante do que uma simples preferência estética.

A luz pode contribuir para a maneira como as pessoas percebem o espaço, se comportam dentro dele e se relacionam umas com as outras. No contexto estudado, iluminação, intimidade, informalidade, relaxamento e sensação de proteção apareciam conectados ao conceito dinamarquês de hygge.

A luz ajudava inclusive a estabelecer pequenas oscilações entre proximidade e separação: estar junto sem necessariamente transformar toda a casa em um único espaço visual.

É aqui que a vela começa a fazer sentido

Uma lâmpada instalada no centro do teto pode iluminar um cômodo inteiro de maneira uniforme. Uma vela faz praticamente o contrário; com uma luz pequena, localizada e instável. Existem áreas iluminadas e áreas que permanecem em penumbra, pois o alcance da luz é limitado.

Em outro trabalho, posteriormente transformado no livro Homely Atmospheres and Lighting Technologies in Denmark: Living with Light, Mikkel Bille estudou justamente o uso cotidiano de diferentes tecnologias de iluminação no país, incluindo a luz de velas.

A pesquisa parte de uma ideia importante: existe uma lógica cultural e social por trás da maneira como iluminamos nossas casas.

O inverno explica uma parte — mas não explica tudo

A geografia naturalmente participa dessa história, pois, durante os meses de inverno, os dias dinamarqueses são curtos, o clima é frio, escuro e frequentemente úmido. A própria página oficial da Dinamarca explica que essas condições fizeram da vida em ambientes internos uma parte importante da cultura do país e descreve o inverno como a principal época do hygge.

É fácil imaginar a relação: quando o mundo exterior permanece escuro durante muitas horas, a maneira como se constrói o ambiente interior adquire outra importância.

Mas, na minha opinião, é muito simplista concluir que os dinamarqueses acendem velas apenas porque vivem em um país frio, já que outras regiões do planeta possuem invernos rigorosos sem desenvolver exatamente a mesma relação cultural com a iluminação.

A vela faz parte do hygge?

Sim, mas vale ressaltae que a palavra não significa “acender velas”.

Hygge é utilizada pelos dinamarqueses para descrever experiências relacionadas a pequenos prazeres, tranquilidade, informalidade e convivência. Pode acontecer durante um jantar demorado entre amigos, tomando alguma coisa quente, conversando, jogando, ouvindo música ou passando algumas horas sozinho com um bom livro. Não existe uma lista oficial de objetos necessários para produzir hygge.

Mesmo assim, a vela aparece repetidamente nas descrições dessa atmosfera; a própria apresentação oficial da Dinamarca menciona as velas quando fala sobre a maneira como o conceito foi transformado em produto fora do país. Restaurantes históricos iluminados por velas aparecem também como lugares onde visitantes podem experimentar algo próximo dessa atmosfera.

 

Uma vela pode mudar nossa maneira de perceber um espaço?

Pesquisas sobre iluminação ajudam a compreender por que essa diferença não é apenas imaginária.

Em estudos conduzidos na própria Dinamarca, pesquisadores observaram que níveis diferentes de iluminação modificavam a experiência das pessoas no espaço. Em um experimento arquitetônico realizado em uma estação dinamarquesa, por exemplo, níveis mais baixos de iluminação foram associados pelos participantes a uma experiência mais relaxada e a mudanças na percepção sensorial do ambiente.

Isso não significa que “quanto mais escuro, melhor”, nem que velas produzam automaticamente relaxamento. Significa algo mais cuidadoso: a quantidade e a distribuição da luz participam da nossa experiência do espaço.

Quando um objeto deixa de ser necessário, mas continua fazendo sentido

A função de iluminar o espaço sim, já é obsoleto, por assim dizer. 

Mas, também não precisamos escrever cartas para nos comunicar rapidamente, e ja estamos voltando escrever. Não precisamos de livros impressos para acessar um texto, mas continuamos tocando papel, mas até hoje eu compro um livro e, quando ele chega, eu quero sentir a textura do papel e amo comprar marcadores de livros quando encontro. Ah, e, mais curioso , é que encontrei a palavra hygge justamente enquanto salvava ideias de mini bibliotecas que estou planejando em fazer na nossa sala de estar. Não precisamos de discos para ouvir música, mas eu e meu marido colecionamos discos e compartilhamo histórias de como encontramos alguns raros quando estudávamos música em SP.

E é exatamente nesse mesmo contexto que acendo velas enquanto escrevo no blog, estudo, ou durante o jantar enquanto converso com meu marido... 

Para a SYMPHONIAROMES , é exatamente isso que eu imagino quando vou criar um nova vela. A cor da embalagem dialogando o o vidro, os detalhes de como escrevo nela, o aroma que crio para trazer uma atmosfera coerente com a criação como um todo, e tenho certeza que quem busca experiências intimistas e profundas percebem ao acendê-las.