Durante muito tempo, o universo das fragrâncias masculinas foi apresentado de maneira relativamente previsível. Algumas famílias olfativas, códigos visuais bastante definidos e a ideia de encontrar um perfume que representasse determinada imagem de masculinidade. Entre adolescentes, perfume frequentemente ocupava um lugar ainda mais simples: cheirar bem.

Mas, segundo pesquisas, algo parece estar mudando.

Uma geração de meninos muito jovens começou não apenas a usar fragrâncias, mas a pesquisar perfumes, comparar notas, discutir projeção e duração, conhecer marcas de nicho e formar pequenas coleções. Nas redes sociais, esse comportamento ganhou um nome: smellmaxxing.

A palavra pode parecer apenas mais uma expressão passageira da internet. O comportamento por trás dela, porém, merece atenção.

O que é smellmaxxing?

Smellmaxxing deriva de uma família de expressões terminadas em maxxing, usadas nas redes sociais para descrever a tentativa de melhorar ou aperfeiçoar algum aspecto da aparência ou da maneira como alguém é percebido.

No caso do smellmaxxing, a preocupação é o cheiro.

Em sua manifestação mais superficial, isso pode significar procurar fragrâncias com grande projeção, longa duração ou perfumes capazes de gerar elogios. Mas o fenômeno acabou produzindo algo maior: muitos adolescentes começaram a desenvolver curiosidade genuína pela perfumaria.

O perfume deixa de ser apenas um produto aplicado antes de sair de casa e começa a se transformar em objeto de pesquisa, comparação e coleção.

E os números ajudam a dimensionar essa mudança.

A pesquisa Taking Stock With Teens, realizada pela Piper Sandler nos Estados Unidos, identificou crescimento de 44% nos gastos de meninos adolescentes com fragrâncias, enquanto entre meninas o crescimento foi de 22%. O gasto anual masculino com a categoria chegou a ficar 16% acima do feminino.

Outros dados já apontavam a mesma transformação. Em levantamento citado pela Vogue, 44% dos meninos americanos entre 12 e 14 anos declaravam usar fragrâncias, percentual que chegava a 57% entre adolescentes de 15 a 17 anos.

Não estamos falando apenas de meninos que começaram a passar perfume.

Estamos diante de jovens que começaram a prestar atenção em perfume.

Quando o perfume passa a fazer parte da construção da identidade

A adolescência é uma fase particularmente importante para a formação da identidade. Gostos, referências culturais, grupos de pertencimento, roupas, música e objetos passam a ajudar a responder uma pergunta que acompanha esse período: quem estou me tornando? O cheiro também pode participar desse processo.

Pesquisas sobre desenvolvimento olfativo mostram que a relação com os odores continua se transformando durante a adolescência. Um estudo realizado com participantes entre 10 e 18 anos encontrou aumento da capacidade de identificação de odores com a idade e também mudanças na importância atribuída ao olfato.

Outro estudo, envolvendo mais de 700 adolescentes e adultos, mostrou algo especialmente interessante: adolescentes e adultos não apresentam exatamente a mesma familiaridade com diferentes categorias de odores. Quando os testes foram adaptados aos cheiros mais familiares aos adolescentes, a diferença de desempenho na identificação olfativa desapareceu.

Isso nos lembra de algo fundamental sobre perfume: reconhecer um cheiro também é uma forma de aprendizado.

Ninguém nasce sabendo que determinada sensação verde e aromática pode estar relacionada ao vetiver, que aquele frescor luminoso lembra bergamota ou que uma determinada madeira possui características diferentes do cedro.

Construímos um vocabulário para aquilo que sentimos.

É isso que podemos chamar de repertório olfativo.

Ter muitos perfumes e entender de perfume são coisas diferentes

Aqui o smellmaxxing encontra uma contradição interessante.

As redes sociais democratizaram um conhecimento que durante muito tempo permaneceu restrito a perfumistas, vendedores especializados, colecionadores e apaixonados pelo assunto. Hoje, um adolescente pode aprender em poucos minutos o significado de termos como projeção, dry down, gourmand ou notas de fundo.

Isso é fascinante; mas as mesmas plataformas que ensinam também podem transformar conhecimento em mais uma corrida por consumo.

Surge o perfume que “todo mundo precisa ter”. Depois outro. A coleção cresce. Novos lançamentos aparecem. O algoritmo apresenta a próxima compra antes mesmo de existir tempo para compreender a anterior.

É possível possuir vinte fragrâncias e conhecer muito pouco sobre perfume.

Da mesma maneira, alguém pode possuir três e ter desenvolvido enorme sensibilidade para perceber suas diferenças.

Colecionar frascos não é necessariamente construir repertório.

Repertório exige comparação, curiosidade e, principalmente, atenção.

Afinal, o que significa aprender a sentir um perfume?

Começa por abandonar um pouco a pressa de decidir imediatamente se uma fragrância é “boa” ou “ruim”.

O ideal para criar uma  própria identidade é experimente perguntar: O que aparece primeiro? Existe alguma nota que consigo reconhecer?Ela me parece fresca, seca, verde, doce, resinosa, amadeirada? O cheiro mudou depois de alguns minutos? Consigo relacioná-lo a alguma memória? Já senti algo semelhante em uma planta, alimento, madeira, lugar ou outro perfume?

Quanto mais fazemos essas associações, maior se torna nosso vocabulário olfativo.

Há uma diferença entre sentir o cheiro de uma matéria-prima e conseguir nomeá-la. Estudos sobre identificação de odores mostram justamente a importância da familiaridade e dos elementos semânticos — aquilo que aprendemos a associar a determinado cheiro — no reconhecimento olfativo.

O mais interessante é que criar um repertório olfativo é  parecido com aprender música.

Antes de desenvolver repertório, alguém pode simplesmente ouvir uma composição e dizer que gosta dela. Depois de algum estudo, começa a perceber timbres, instrumentos, estruturas, harmonias e referências.

A música continua provocando emoção.

O conhecimento não destrói essa emoção. Ele amplia aquilo que conseguimos escutar.

Com o perfume acontece algo semelhante.

E perfume precisa ter gênero?

O crescimento do interesse de meninos muito jovens pela perfumaria também abre espaço para outra conversa.

Durante décadas, a indústria organizou grande parte das fragrâncias comerciais em duas grandes prateleiras: masculino e feminino.

Essa classificação fez com que determinados códigos olfativos fossem repetidamente associados a cada gênero. Madeiras, notas aromáticas e certos cítricos tornaram-se frequentes na perfumaria masculina; florais e determinadas construções adocicadas foram fortemente associados à feminina.

Mas uma matéria-prima não possui gênero: cedro não sabe que foi colocado em um perfume masculino, rosa não sabe que foi colocada em um perfume feminino, e baunilha tmapouco.

São materiais olfativos. O significado cultural que atribuímos a eles foi construído ao longo do tempo.

Talvez uma geração que começa a conhecer perfumes tão cedo tenha também a oportunidade de questionar algumas dessas divisões.

Em vez de perguntar primeiro “esse perfume é masculino ou feminino?”, existe uma pergunta muito mais interessante:

“O que estou sentindo?”

Do smellmaxxing ao repertório olfativo

Se existe algo realmente interessante acontecendo por trás dessa tendência, não é simplesmente o fato de adolescentes estarem comprando mais perfumes.

É a possibilidade de uma nova geração começar a desenvolver curiosidade pelo olfato.

O problema aparece quando essa curiosidade é imediatamente convertida em consumo automático.

Conhecer perfumaria não deveria significar decorar quais fragrâncias estão recebendo mais elogios nas redes sociais. Tampouco acumular todos os perfumes considerados indispensáveis naquele mês.

Pode significar aprender sobre matérias-primas. Descobrir famílias olfativas. Comparar construções. Conhecer história. Desenvolver vocabulário. Perceber diferenças.

E, principalmente, formar o próprio gosto.

Porque talvez a pergunta mais interessante diante de uma prateleira cheia de perfumes não seja:

“Qual deles todo mundo está usando?”

Mas:

“Por que eu gosto deste cheiro?”

Responder a essa pergunta exige mais do que seguir uma tendência.

Exige repertório.