Durante muitos anos, acreditei que algumas das minhas lembranças mais bonitas pertenciam apenas à minha família. Todos os domingos, ainda pela manhã, minha avó saía para a feira. Eu a observava caminhar entre as bancas com a calma de quem nunca teve pressa para escolher uma fruta, conversar com os feirantes ou encontrar conhecidos pelo caminho. Antes de voltar para casa, passava pelo frango assado que já estava encomendado para o almoço em família, e aquele ritual se repetia semana após semana, tornando-se tão natural que jamais imaginei que pudesse existir uma história maior por trás dele.

Foi apenas muitos anos depois que essa lembrança voltou à minha memória por um motivo inesperado. Enquanto pesquisava referências para desenvolver a coleção Azulejo , comecei a me perguntar de onde vinha aquele costume tão presente na minha infância. Afinal, por que a feira ocupava um lugar tão importante na vida da minha avó? Por que tantas famílias brasileiras ainda preservam esse mesmo hábito de sair cedo aos domingos para escolher frutas, verduras e flores, transformando uma simples compra em um momento de encontro?

Essa pergunta me levou para muito além das minhas próprias recordações. Descobri que as feiras, como conhecemos hoje, fazem parte de uma tradição antiga. Muito antes de se tornarem espaços de abastecimento, elas já ocupavam um papel essencial na vida das cidades portuguesas, reunindo agricultores, comerciantes e moradores em mercados periódicos que organizavam não apenas a circulação dos alimentos, mas também a convivência entre as pessoas. Com a chegada dos portugueses ao Brasil, esse modelo atravessou o Atlântico e, ao longo dos séculos, foi sendo incorporado ao nosso cotidiano até se transformar em um dos costumes mais familiares da cultura brasileira.

Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas guardem lembranças parecidas. Quase toda família tem uma história que começa em uma feira. Para alguns, ela tem o cheiro do café passado na hora. Para outros, o sabor do pastel recém-frito ou o colorido das flores da estação. No meu caso, a memória sempre esteve nas frutas. Sempre fui fascinada em escolher as frutas, uma a uma, observando a casca, o perfume e o ponto exato de maturação, como se aquele gesto, repetido tantas vezes, carregasse um conhecimento que nunca precisou ser explicado em palavras.

Foi então que compreendi que nem todo patrimônio permanece preservado em monumentos, edifícios históricos ou documentos oficiais. Existe uma parte da cultura que continua viva justamente porque é transmitida de maneira silenciosa, através dos pequenos gestos cotidianos que passam de uma geração para outra. Escolher uma fruta madura, caminhar sem pressa por uma feira ou preparar o almoço de domingo talvez pareçam ações simples demais para ocupar um capítulo de um livro de História. Ainda assim, são elas que mantêm vivas muitas das tradições que atravessam séculos.

Foi seguindo essa investigação que minha pesquisa chegou a Portugal. Eu já não procurava apenas referências para uma fragrância. Procurava compreender como uma memória da minha infância poderia dialogar com uma história muito mais antiga. E foi assim que encontrei o Algarve, uma região onde a cultura dos citrinos, os mercados tradicionais e a vida cotidiana continuam revelando que algumas histórias permanecem vivas justamente porque ainda fazem parte da rotina das pessoas.

Naquele momento compreendi que a coleção Azulejo jamais poderia nascer apenas da beleza dos azulejos portugueses ou do perfume luminoso dos citrinos. Ela precisava nascer desse encontro entre memória, arquitetura e cotidiano, porque foi exatamente isso que encontrei ao longo da pesquisa: a certeza de que a cultura não sobrevive apenas nos grandes acontecimentos, mas também nos gestos mais discretos, repetidos quase sem perceber, que continuam ligando famílias, lugares e gerações separadas pelo oceano.