Há experiências que parecem pertencer a universos completamente diferentes. Uma música começa pelo ouvido; um aroma, pelo olfato. Ainda assim, ambas podem modificar a maneira como percebemos um ambiente, despertar memórias, alterar nosso estado emocional e até acompanhar aqueles momentos em que sentimos o corpo desacelerar.

Mas existe algo além da percepção subjetiva?

“Foi justamente essa pergunta que chamou a atenção dos pesquisadores Alessia Baccarani, Sophie Donnadieu, Sonia Pellissier e Renaud Brochard, autores de um estudo publicado em 2023 na revista científica Psychophysiology. A pesquisa, intitulada Relaxing effects of music and odors on physiological recovery after cognitive stress and unexpected absence of multisensory benefit, colocou música e aroma dentro de um mesmo experimento para investigar a recuperação fisiológica após o estresse.”

E observaram o que acontecia com o organismo depois de uma situação de estresse.

Primeiro, os pesquisadores provocaram estresse

O experimento reuniu 99 participantes, e, antes da fase de recuperação, eles realizaram tarefas cognitivamente exigentes com limitação de tempo, desenvolvidas para provocar uma resposta de estresse. Os pesquisadores acompanharam continuamente duas medidas fisiológicas.

Uma delas foi a atividade eletrodérmica (EDA), relacionada à atividade do sistema nervoso simpático — aquele que participa dos estados de maior ativação e alerta.

A outra foi um componente da variabilidade da frequência cardíaca (HF-HRV), utilizado no estudo como indicador da atividade parassimpática, relacionada aos processos de recuperação e regulação do organismo.

As medições foram realizadas antes, durante e por 30 minutos depois da situação de estresse.

E o próprio experimento confirmou que o desafio havia produzido uma resposta fisiológica: durante o período estressante, houve aumento da atividade eletrodérmica e diminuição da HF-HRV.

Música, aroma, os dois juntos — ou nenhum deles

Após a exposição ao estresse, os 99 participantes foram distribuídos em quatro condições diferentes.

Um grupo permaneceu em silêncio e sem aroma, funcionando como controle; outro ouviu peças de música clássica de andamento lento, selecionadas pelos pesquisadores por suas características relaxantes. Um terceiro foi exposto ao aroma de óleo essencial de lavanda, e o quarto recebeu os dois estímulos simultaneamente: música e aroma.

A pergunta era aparentemente simples: esses estímulos poderiam favorecer a recuperação fisiológica depois do estresse?

Os resultados mostraram que sim — mas de uma maneira bem mais interessante do que simplesmente dizer que “música e aroma relaxam”.

O corpo não respondeu da mesma maneira aos dois

Durante a recuperação, a exposição ao aroma esteve associada a uma queda maior da atividade eletrodérmica quando comparada ao grupo que permaneceu sem aroma e em silêncio.

Já com a música aconteceu outra coisa. Os participantes expostos à música apresentaram maior aumento da HF-HRV em comparação ao controle.

Em outras palavras, tanto o estímulo olfativo quanto o musical apresentaram efeitos associados à recuperação fisiológica depois do estresse, porém esses efeitos apareceram em indicadores diferentes do funcionamento do sistema nervoso autônomo.

Essa diferença é fundamental.

O estudo não demonstrou que ouvir música clássica e sentir um aroma produzem exatamente a mesma resposta no cérebro. Pelo contrário: os próprios pesquisadores consideram que os efeitos observados podem depender de mecanismos neurais e vias autonômicas distintas.

Dois caminhos sensoriais diferentes, portanto, podem participar de um mesmo processo mais amplo: a passagem de um estado de maior ativação para um estado de recuperação.

E quando música e aroma foram apresentados juntos?

Aqui apareceu a parte mais inesperada da pesquisa. Seria bastante intuitivo imaginar que, se a música apresentou determinado efeito e o aroma apresentou outro, colocar os dois juntos produziria um resultado ainda maior.

Não foi o que aconteceu.

Na condição em que os participantes receberam simultaneamente música e aroma, os pesquisadores não encontraram o benefício adicional esperado nos indicadores do sistema nervoso autônomo 30 minutos depois do estresse.

Os autores chamam atenção justamente para esse resultado inesperado.

Isso também nos lembra de algo importante quando falamos sobre bem-estar: mais estímulos não significam necessariamente uma experiência fisiologicamente melhor.

 

Talvez nossos pequenos rituais sejam mais complexos do que parecem

Colocar uma música enquanto a casa silencia. Ler algumas páginas de um livro. Preparar um café sem pressa. Acender uma vela. Sentir determinado aroma enquanto o ritmo do dia começa a mudar.

Frequentemente descrevemos essas experiências apenas como preferências: “isso me acalma”, “essa música me faz bem”, “gosto desse cheiro”.

A ciência não transforma esses pequenos rituais em tratamentos — e não deveria.

Mas pesquisas como essa permitem observar que aquilo que experimentamos subjetivamente também pode conversar com processos fisiológicos mensuráveis.

Aqui em casa, por exemplo, em momentos de ápice do trabalho, sempre paro por 15 minutos, acendo uma velz e ouço um concerto de Mozart... Instantaneamente eu me acalmo e sigo as tarefas mais desafiadoras...