Durante muito tempo, existiu um desconforto difícil de nomear.
Uma sensação silenciosa de não caber completamente em um único lugar.
De um lado, a mulher que estudou, construiu carreira, fez faculdade, mestrado, que ama trabalhar, criar, produzir.
Do outro, um encantamento profundo por tudo aquilo que carrega tempo: o artesanato, o feito à mão, os gestos lentos, os objetos que parecem guardar histórias — aquilo que, no imaginário coletivo, costuma ser chamado de “casa de vó”.
Por anos, esses dois mundos pareceram opostos.
Como se fosse preciso escolher apenas um deles.
A falsa oposição que aprendemos a aceitar
Existe uma expectativa cultural pouco dita, mas bastante sentida:
quanto mais moderna, produtiva e intelectual uma mulher se torna, menos espaço haveria para o manual, o artesanal, o doméstico.
Não se trata de uma regra explícita, ninguém dizia isso em voz alta, mas ao mesmo tempo, a sensação estava ali — nas entrelinhas, nas associações automáticas entre valor, produtividade e velocidade.
Isso acabou gerando em mim um conflito muito pesado, por assim dizer, e o gostar do feito à mão parecia contraditório.
Apreciar o tempo lento soava quase como um retrocesso.
Quando aceitar deixou de ser conflito
A primeira vez que comecei questionar essas regras dentro de mim foi durante meu mestrado nos EUA.
Uma das alunas tricotava nos intervalos. Aquilo simbolizou, de fato, uma quebra de padões para mim e percebi que não havia a menor necessidade dessa contradição real — apenas uma narrativa aprendida.
A mulher que cria, estuda, trabalha e constrói também pode amar o artesanal.
Pode encontrar beleza no gesto manual.
Pode se sentir inteira ao organizar flores secas ou cozinhar em casa.
Não são mundos rivais.
São camadas da mesma identidade.
Mais do que isso, comecei sentir mais liberdade em mostrar esse meu lado: sim, amo cozinhar, planejar as refeições da semana e cuidar da minha casa, assim como, ler um livro e participar de um debate de aluma atualização científica de algum assunto...
O valor do tempo, do cuidado e do gesto
Hoje, dizer que gosta dessas coisas, de certos tipos de decoração é dizer que gosta de casa devó.
O que muitas vezes é resumido como “casa de vó” não fala sobre passado ou atraso.
Fala sobre cuidado, permanência, memória, atenção aos detalhes.
Fala sobre fazer algo sem pressa.
Sobre criar não apenas para produzir, mas para sentir.
E o artesanal desafia a lógica da pressa constantemente. Não fica pronto em um piscar de olhos, e é nisso que se cria o verdadeiro valor.
Ele lembra que nem tudo precisa ser imediato ou escalável.
Nem tudo precisa ser acelerado.
Reconciliar, não escolher
Aceitar esse paradoxo foi, na verdade, um exercício de reconciliação dentro de mim.
Decidi me assumir como mulher de várias fazetas, mesmo, vários gostos...
Quando esses mundos deixam de disputar espaço, algo se organiza internamente.
E assim nasceu minha marca: SYMPHONIAROMES, simbolizando esse ponto de virada, onde o fazer se tornou mais coerente com meu propósito de vida.
Talvez muitas mulheres reconheçam esse mesmo incômodo.
Talvez ele nunca tenha sido um dilema individual, mas um padrão pouco questionado.
E talvez não seja preciso escolher entre ser moderna ou amar o feito à mão.
Talvez seja justamente nesse encontro que mora nossa identidade mais completa.