Quando comecei a pesquisar a origem das feiras livres e a relação que elas mantêm com a cultura portuguesa, imaginava que estava apenas tentando compreender uma lembrança da minha infância. Queria descobrir por que minha avó fazia questão de acordar cedo todos os domingos para caminhar entre as bancas, escolher frutas da estação e transformar uma compra simples em um ritual que reunia toda a família ao redor da mesa. Não demorou para perceber que aquela memória fazia parte de uma tradição muito maior do que a história da minha própria família. O que eu ainda não sabia era que essa mesma pesquisa me levaria a outra descoberta, igualmente importante para a construção da coleção Azulejo : os limões do Algarve.
Durante muito tempo, associei o limão siciliano exclusivamente à Itália. Essa talvez seja a imagem mais difundida no Brasil. Quando pensamos em limões amarelos, quase sempre imaginamos as paisagens da Costa Amalfitana, as ruas da Sicília ou as garrafas de limoncello servidas ao final de uma refeição. Essa associação faz sentido e faz parte da história mediterrânea. No entanto, ao aprofundar minha pesquisa, encontrei uma narrativa menos conhecida por aqui, mas igualmente rica. No extremo sul de Portugal existe uma região onde os citrinos fazem parte da paisagem há séculos e onde o perfume dos limões se tornou uma expressão silenciosa da própria identidade local.
O Algarve costuma ser lembrado pelo mar, pelas falésias esculpidas pelo tempo e pela luminosidade que parece acompanhar todas as estações do ano. É uma imagem verdadeira, mas incompleta. Basta deixar o litoral e seguir pelas estradas do interior para encontrar um cenário completamente diferente. Entre pequenas propriedades rurais, pomares e mercados tradicionais, percebe-se que a agricultura continua ocupando um lugar importante na vida da região. Não se trata apenas de produzir alimentos. Trata-se de preservar um modo de viver em que o ritmo das estações ainda determina o tempo da colheita, das feiras e da mesa.
Foi justamente nesse contexto que os citrinos encontraram condições excepcionais para se desenvolver. O Algarve reúne um clima mediterrânico marcado por invernos amenos, verões longos e uma quantidade de horas de sol que favorece o amadurecimento lento dos frutos. Ao mesmo tempo, a influência do Oceano Atlântico ajuda a equilibrar as temperaturas e cria um ambiente especialmente favorável para a formação dos aromas. Não é por acaso que Portugal reconhece os Citrinos do Algarve como um produto de identidade própria, protegido por uma Indicação Geográfica. Esse reconhecimento não existe apenas para distinguir uma fruta de outra. Ele protege um conhecimento agrícola transmitido ao longo de gerações, profundamente ligado ao território onde esses frutos são cultivados.
Essa foi uma das partes da pesquisa que mais me chamou a atenção. Costumamos pensar que a qualidade de uma fruta depende apenas da variedade plantada, mas a agricultura ensina exatamente o contrário. O lugar também faz parte daquilo que cultivamos. O solo, o vento, a luz, a proximidade do mar, o cuidado de quem planta e o tempo dedicado ao cultivo interferem diretamente no resultado final. Talvez por isso seja tão difícil reproduzir em outro lugar aquilo que nasceu em uma paisagem específica. A natureza também possui sotaques.
Quando observamos um limão recém-colhido, é fácil enxergar apenas sua casca amarela e brilhante. No entanto, quem trabalha com perfumaria aprende rapidamente que é justamente nessa casca que está concentrada uma das partes mais preciosas do fruto. É ali que se encontram os óleos essenciais responsáveis por aquele perfume fresco, luminoso e vibrante que imediatamente nos remete ao Mediterrâneo. No Algarve, onde a combinação entre clima e tradição agrícola favorece o desenvolvimento dos citrinos, esses aromas ganham uma personalidade delicada, equilibrando frescor, leve doçura e uma intensidade que dificilmente passa despercebida.
Enquanto pesquisava sobre esses pomares, comecei a perceber que havia uma semelhança curiosa entre eles e as feiras que deram início à minha investigação. Em ambos os casos, o centro da experiência nunca foi apenas o alimento. As frutas estavam presentes, naturalmente, mas carregavam consigo algo muito maior: a relação das pessoas com a terra, com o tempo e com a convivência. Os mercados tradicionais portugueses continuam sendo lugares onde produtores conhecem seus clientes pelo nome, onde receitas são compartilhadas durante uma conversa e onde escolher um limão ainda pode ser um gesto feito sem pressa. Foi impossível não lembrar da minha avó caminhando entre as bancas da feira brasileira.
Foi então que compreendi que a coleção Azulejo não poderia nascer apenas da beleza dos azulejos portugueses ou da luminosidade dos citrinos. Ela precisava nascer daquilo que une esses dois elementos. Ambos fazem parte da mesma paisagem cultural. Os azulejos preservam a memória nas fachadas das casas; os limões preservam a memória nos pomares, nas feiras e na mesa. Um pertence à arquitetura. O outro pertence à agricultura. Ambos contam a história de um território que aprendeu a transformar o cotidiano em patrimônio.
Essa percepção mudou completamente a forma como passamos a pensar a fragrância. Não buscávamos reproduzir simplesmente o cheiro de um limão. Também não queríamos construir uma interpretação genérica do Mediterrâneo. O desafio era traduzir a atmosfera de um lugar onde arquitetura, agricultura, luz e tradição convivem naturalmente, sem que seja possível separar uma coisa da outra. A fragrância precisava carregar a sensação de caminhar por uma feira ao ar livre, atravessar ruas iluminadas pelo sol, perceber o perfume dos citrinos vindo dos pomares e encontrar, ao virar uma esquina, uma fachada revestida por azulejos que atravessaram séculos quase intactos.
E assim, concluí que algumas paisagens não permanecem vivas apenas porque são bonitas. Elas permanecem porque continuam sendo habitadas, cultivadas e transmitidas de geração para geração. O patrimônio cultural não existe apenas para ser admirado. Ele continua existindo porque ainda faz parte da vida cotidiana de quem vive naquele lugar.
E assim nasceu a coleção Azulejo : não como uma homenagem isolada aos limões, aos azulejos ou às feiras, mas como um encontro entre todos esses elementos. Um encontro que começou com uma lembrança de infância e terminou revelando que algumas histórias atravessam oceanos sem perder o perfume.