Durante muito tempo, acreditou-se que cada sentido ocupava um território próprio. Os olhos existiam para enxergar, os ouvidos para ouvir e o olfato apenas para reconhecer os aromas do mundo. A arte também seguia essa lógica: a pintura pertencia às cores, a música aos sons e a poesia às palavras. No entanto, em meados do século XIX, um poeta francês lançou uma ideia que transformaria profundamente a maneira como artistas passariam a compreender a experiência humana, o que me inspira muitas reflexões...
Esse poeta era Charles Baudelaire. Em 1857, na obra As Flores do Mal, publicou um soneto chamado Correspondências. O poema é breve, mas atravessou gerações e permanece como uma das reflexões mais influentes da literatura moderna sobre a relação entre os sentidos. No centro do texto, aparece um verso que me despertou muita curiosidade: “Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.” À primeira vista, parece apenas uma imagem poética. Mas Baudelaire estava propondo algo muito maior.
Ele sugeria que a experiência humana não acontece em compartimentos separados. Um aroma pode despertar uma lembrança tão nítida quanto uma fotografia. Uma música pode fazer surgir uma paisagem inteira diante dos olhos. Uma determinada combinação de cores pode transmitir serenidade, nostalgia ou entusiasmo antes mesmo que consigamos explicar racionalmente o motivo. Para Baudelaire, o mundo era formado por relações invisíveis que a arte tinha a capacidade de revelar.
Essa ideia marcou profundamente a cultura europeia da segunda metade do século XIX. Pintores passaram a falar sobre harmonia das cores. Músicos buscaram criar atmosferas em vez de apenas melodias. Poetas aproximaram palavras, imagens e aromas. Nesse mesmo ambiente intelectual, surgiram as reflexões de Goethe sobre a percepção das cores, a ideia do compositor Richard Wagner de uma obra de arte total e, alguns anos depois, as cartas de Vincent van Gogh, nas quais ele escreve sobre o desejo de criar pinturas capazes de consolar como a música.
Existe um trecho que me gerou muita curiosidade no soneto de Boudelaire. Ao falar dos perfumes, ele não se limitou ao olfato, mas descreveu os aromas: 'doces como o oboé', fala de âmbar, musgo, incenso e benjoim e faz com que essas fragrâncias pareçam cantar. O perfume deixa de ser apenas uma característica da matéria e torna-se uma linguagem artística.
Mais de um século e meio depois, continuamos recorrendo a esse mesmo vocabulário. Dizemos que um perfume é luminoso, escuro, verde, aveludado ou dourado. Falamos de atmosferas, não apenas de ingredientes. Sem perceber, ainda pensamos o perfume da maneira sugerida por Baudelaire: como uma experiência que atravessa diferentes sentidos.
Talvez essa seja a razão pela qual esse soneto permaneça tão atual. O poema não fala apenas sobre literatura. Ele fala sobre a forma como construímos nossas memórias. As lembranças mais profundas raramente pertencem a um único sentido. Elas costumam reunir luz, sons, texturas, aromas e emoções em uma única experiência.
Em meio a todos os sentidos, foi assim que escolhi o nome da marca: SYMPHONIAROMES. A palavra symphonia sempre carregou a ideia de diferentes elementos que, reunidos, formam uma única experiência. Durante muito tempo pensei nessa relação apenas entre música e perfumaria. Ao conhecer mais profundamente autores como Baudelaire, Goethe e as cartas de Van Gogh, percebi que essa conversa já acontecia muito antes de um perfume existir dentro de um frasco.
Baudelaire escreveu que os perfumes, as cores e os sons se correspondem. Goethe acreditava que as cores despertavam emoções. Van Gogh desejava que suas pinturas consolassem como a música. Cada um deles, à sua maneira, parecia procurar a mesma coisa: compreender como diferentes linguagens podem tocar um mesmo lugar dentro da memória humana.
Hoje, essa é a ideia que melhor explica o trabalho desenvolvido aqui na nossa marca: cada fragrância nasce da tentativa de construir uma composição em que aroma, memória, matéria e cultura dialoguem entre si, como acontece em uma peça musical ou em uma pintura. Não se trata apenas de perfumar um ambiente, mas de criar uma atmosfera capaz de permanecer na lembrança muito depois que o perfume deixa de ser percebido.