Durante muito tempo, cuidar de mim nunca esteve no topo da lista. Na verdade, quase nunca esteve na lista. Sempre havia algo mais urgente, alguém precisando, uma prioridade maior do que eu. E, no fundo, havia uma sensação silenciosa de que eu não merecia parar.

Não era uma decisão consciente. Era um hábito emocional. Cuidar de mim parecia exagero, luxo, desperdício de tempo. Descansar vinha acompanhado de culpa. Investir em algo só porque fazia bem soava injustificável.

Eu seguia funcionando.

A ideia de acender uma vela, de criar um momento só para mim, parecia algo distante, quase fora da minha realidade. Como se esse tipo de cuidado fosse reservado a outras pessoas — mais organizadas, mais tranquilas, mais merecedoras.

Foi só aos 34 anos que isso começou a mudar.

A culpa que não se explica, mas se sente

A dificuldade em me cuidar não vinha da falta de informação. Eu sabia da importância do autocuidado, lia sobre isso, ouvia sobre isso. Ainda assim, algo travava.

Sempre havia um pensamento que surgia antes do gesto:
“Agora não.”
“Depois.”
“Não faz sentido.”

E, principalmente:
“Não precisa.”

Essa culpa não tinha uma origem clara. Ela apenas estava ali, presente em pequenas decisões do dia a dia. Em não comprar algo que me faria bem. Em não parar. Em não criar pausas.

O início de um processo interno

Foi através da psicanálise que comecei a olhar para isso com mais honestidade. Não como falha, mas como construção. Perceber que aquela culpa não era minha, no sentido individual, foi libertador.

Ela vinha de histórias, de aprendizados antigos, de uma lógica interna que associava valor pessoal à utilidade constante. Se eu estava produzindo, resolvendo, ajudando, então estava tudo bem. Fora disso, surgia o desconforto.

Aos poucos, comecei a entender que me cuidar não precisava ser grandioso. Não precisava ser justificável. Não precisava ter função prática.

Precisava apenas acontecer.

O gesto simples que marcou uma mudança

Comprar minha primeira vela aromática não foi um ato impulsivo. Foi quase simbólico. Um gesto pequeno, mas carregado de significado.

Ela não resolveu nada sozinha. Não mudou minha vida de um dia para o outro. Mas representou algo novo: a permissão de criar um espaço de cuidado sem culpa.

Acender aquela vela foi, de certa forma, assumir que eu também podia ser prioridade — mesmo que por alguns minutos.

Cuidar de si não é um ponto de chegada

Esse processo não é linear. Ainda existem dias em que a culpa aparece. Ainda existem momentos em que o antigo padrão tenta voltar.

Mas agora há consciência. E isso muda tudo.

Cuidar de si deixou de ser algo que eu faço apenas quando “mereço”. Passou a ser algo que sustenta o caminho. Um aprendizado contínuo, feito de escolhas simples e constantes.

Conclusão

Demorei 34 anos para comprar minha primeira vela aromática não porque eu não gostasse delas, mas porque eu não me colocava no centro das minhas próprias escolhas.

 

Hoje, entendo que o cuidado começa quando a culpa é questionada. Quando pequenos gestos deixam de ser adiados. Quando a gente aprende, aos poucos, que não precisa provar nada para merecer estar bem.