Quando descrevemos uma fragrância como harmoniosa, intensa ou delicada, raramente pensamos que essas palavras também poderiam servir para uma pintura. No entanto, Vincent van Gogh acreditava que a arte não deveria apenas representar o mundo. Ela deveria provocar uma experiência emocional comparável à da música.
Em diversas cartas escritas entre 1888 e 1889, Van Gogh compara a pintura à música. Em uma delas, afirma o desejo de criar uma arte capaz de consolar como a música de Berlioz e Richard Wagner, dois compositores muito conhecidos da época. Em outra carta, ele descreveu a ambição de produzir uma verdadeira 'canção de ninar em cores'. Isso, para mim representa que cores não eram simples pigmentos para ele, mas elementos de uma composição.
Essa forma de pensar ajuda a compreender obras como os Girassóis. A força da pintura não nasce de um único amarelo. Ela surge do diálogo entre dourados, ocres, verdes discretos e pequenos contrastes. Assim como uma sinfonia depende da relação entre diferentes notas, a emoção da tela depende da relação entre diferentes tonalidades.
Curiosamente, a perfumaria funciona da mesma maneira. Uma fragrância raramente encanta por causa de uma única matéria-prima. O efeito nasce da conversa entre cítricos, flores, madeiras, resinas e almíscares. O perfumista organiza essas notas como um compositor organiza sons e como Van Gogh organizava suas cores.
Por isso utilizamos palavras como composição, acorde e notas olfativas. Elas não são apenas metáforas elegantes. Elas descrevem um processo criativo baseado na harmonia entre diferentes elementos que evoluem ao longo do tempo.
Na minha opinião, as cartas de Van Gogh oferecem uma chave valiosa para compreender a criação artística, pois, quando ele desejava que uma pintura consolasse como a música, ele estava dizendo que a técnica só fazia sentido se fosse capaz de despertar sensações e ativar ou até mesmo contruir memórias. E isso é o mais valioso para mim: a arte permanecer dentro de quem a observava.
Essa mesma busca existe na perfumaria autoral. Uma fragrância memorável não termina quando deixa de ser percebida no ar. Ela continua vivendo na lembrança de um lugar, de uma conversa ou de uma estação do ano. É essa permanência invisível que aproxima a pintura, a música e o perfume.
Na SYMPHONIAROMES, essa reflexão acompanha o desenvolvimento de cada coleção. Antes de escolher uma matéria-prima, buscamos compreender qual atmosfera desejamos construir. As notas olfativas dialogam entre si da mesma maneira que Van Gogh organizava suas cores sobre a tela: não para reproduzir o mundo literalmente, mas para despertar uma experiência sensível capaz de permanecer na memória.